Eventos cíclicos naturais como cio, parto e lactogênese são suficientemente estressantes
A homeostase não é um conceito abstrato difícil de ser mensurado: ela pode ser aferida através de alguns parâmetros. Pode-se avaliar, por exemplo, o pH sanguíneo (entre 7,35 e 7,45), a temperatura retal (entre 38,6 e 39,2°C), os batimentos cardíacos (de 60 a 120 bpm), a frequência respiratória (entre 32 e 58 mrm), a porcentagem de água corporal (de 50 a 80%), a glicemia (entre 65 e 95 mg/ dL), entre outros. O que vai determinar qual desses números vai enquadrar o animal em homeostase é a fase de vida dele. Logo, um leitão de maternidade tende a ter batimentos cardíacos muito acelerados (entre 110 e 120 bpm) enquanto a mãe dele vai ter um ritmo bem menos veloz (entre 60 e 80 bpm).
Os principais recursos fisiológicos usados por animais para manutenção da homeostase estão ligados ao movimento de água e eletrólitos. O ganho de água acontece principalmente pela água de bebida (80%), ração (5%) e metabolismo (15%). Lembrando que uma ração seca tem aproximadamente 12% de umidade e que os produtos do metabolismo aeróbico são água e CO2. E a perda acontece em sua maior parte pela urina e menor parte pela respiração e pele (perda insensível) e pelas fezes. Já o ganho de eletrólitos é quase exclusivamente pela ingestão de ração e ínfimo pela água. A perda de eletrólitos acontece principalmente pela urina, fezes (saliva e bile) e muito pequena parte pela pele, já que os suínos têm poucas glândulas sudoríparas funcionais. Então, o estado de equilíbrio entre a perda e o ganho de água e eletrólitos significa que o animal está em homeostase.
FASES DESAFIADORAS DAS FÊMEAS
Os suínos destinados à reprodução, mais especificamente as fêmeas, passam por fases desafiadoras para a homeostase, natural e ciclicamente. Uma fêmea no cio tem seu apetite reduzido e pode entrar em hipoglicemia (ou cetose metabólica) e desidratar-se. O periparto é bastante desafiador também, pois no mesmo evento (o parto) temos uma redução intencional na oferta de ração e uma súbita necessidade de energia e eletrólitos (para contrações uterinas) e água (para formação do colostro).
Além do mais, o parto é um evento desencadeado pela alta concentração de cortisol produzido pelos leitões já prontos para nascerem. Já uma fêmea lactante tem sua temperatura retal normal aumentada (39,1°C), pois a lactogênese produz calor. Toda vez que uma fêmea passa por uma situação estressante em que não consegue manter a homeostase ela, numa tentativa de autopreservação, sacrifica seu desempenho reprodutivo. Isso pode ser percebido quando há uma repetição de cio irregular, um aborto, um baixo número de nascidos totais ou uma baixa produção de leite. Seja hipoglicemia, desidratação ou hipertermia, essas condições naturais são inerentes ao processo, mas podem ser agravadas por infraestrutura inadequada que não mitiga estressores ambientais. O calor é inquestionavelmente o principal estressor ambiental da fêmea suína.
Embora desenvolvido para ruminantes, o esquema da Figura 1 é aplicado na Bioclimatologia Animal em suínos e outras espécies. Suínos adultos criados sob condições climatológicas brasileiras (que variam de equatorial à subtropical) têm mais desafios frente ao calor que ao frio. Ondas de calor muito intensas ou abruptas podem produzir uma ofegação (aumento da frequência respiratória) que aumenta a excreção de CO2 e do pH sanguíneo levando o animal à alcalose respiratória e morte por hipertermia. Todos os mecanismos de hipo e hipertermia podem ser explicados pela regulação ácido-base sanguínea.

FERRAMENTAS COADJUVANTES
É evidente que nenhum recurso adicional elimina os efeitos de uma infraestrutura deficitária com incidência solar direta, alta umidade (acima de 70%) ou altas temperaturas (geralmente, acima de 22°C para animais adultos), por exemplo. Mas suplementos minerais, vitamínicos e com carboidratos via água de bebida são uma excelente ferramenta como coadjuvantes na correção de desequilíbrios hidroeletrolíticos causados pelo estresse natural e provocado de cada fase.
Suplementos compostos pelos principais íons presentes no meio extracelular (Na+ e Cl-) e intracelular (K+), além de fontes de energia (glicose), mantém a bomba de sódio e potássio ativa e funcional e ajudam a manter o pH sanguíneo na estreita faixa de variação tolerável pelos animais. A pressão sanguíne apode variar até 10% sem que haja prejuízo para o suíno, mas pode ser fatal se a osmolaridade sanguínea variar acima de 1%.
Vitaminas como C, E e A são antio-xidantes e combatem os radicais livres aumentados nesses períodos estressan-tes. Já as vitaminas C, do complexo B e D ajudam a regular os níveis de cortisol circulantes.
CONCLUSÃO
Em resumo, mesmo que todas as condições de bem-estar animal ligadas ao conforto térmico sejam oferecidas às fêmeas suínas, os eventos cíclicos naturais como cio, parto e lactogênese são suficientemente estressantes. Capazes de provocar desidratação, hipoglicemia e hipertermia, exacerbados por estressores ambientais ou uma condição física debilitada, os efeitos desses eventos naturais variam desde uma perda de desempenho leve até a fatalidade. Logo, utilizar ferramentas como suplementos minerais, vitamínicos e energéticos podem facilitar a manutenção da homeostase. É bem-estar animal na prática.
Flávia Cristina Silva
Médica Veterinária (UFU) e MBA Gestão Empresarial (FGV)
Coordenadora Técnica Nacional – Suinocultura, Sanex
Fonte: O Presente Rural

